Uma refutação à banalização da fé na Igreja de Deus no Brasil – Parte 2

d) Culto privado e culto público: continuando a discussão sobre o “Culto dos Heróis” é bom lembrar que há um grande mal entendido com relação ao culto privado e o culto público. Muitas pessoas, nos dias de hoje, acreditam que ambos significam a mesma coisa. Todavia, não é assim. Seja no Antigo ou no Novo Testamento sempre existiu uma maneira de cultuar a Deus em público e outra em privado. Para que fique claro, o privado pode ser tido como qualquer esfera que envolva familiares e amigos próximos e não apenas o indivíduo. Público é tudo aquilo que diz respeito a qualquer pessoa, ao povo. Primeiramente, sobre o culto privado a Bíblia não se preocupa muito quanto à forma, apenas diz que deve haver orações, ações de bondade, louvores e meditação na Palavra de Deus; o conteúdo não se difere do culto público, pois diz respeito à adoração ao próprio Deus e abandono do pecado, Cristo como centro da vida cristã e desejo pela vontade de Deus. Ou seja, no culto privado o que importa é que fazei tudo para glória de Deus” (1Co 10:31). Por isso o conhecido príncipe dos pregadores Charles Spurgeon afirmava que fumava seus charutos no aconchego de seu lar para a glória de Deus (apesar de não concordar com ele, por motivos que mostrarei adiante), no entanto, nunca fez um “Culto do Charuto” e convidou os membros de sua igreja para participarem. Assim, podemos perceber que, quando estou só, posso cultuar a Deus de maneiras as quais jamais cultuaria em público, como, por exemplo, com roupas de dormir, fazendo caretas em frente ao espelho, brincando, em uma festa a fantasia. Agora sobre o culto público, o que se pode dizer? Qual é o espaço mais conhecido para o culto público? O templo de reuniões da igreja. Aquele templo não é sagrado, todavia, é um espaço aberto a crentes e descrentes e todo tipo de pessoa que queira adentrá-lo, se não for assim não é igreja. Ali passam pessoas de várias opiniões, pessoas que não compreendem muita coisa, ou mesmo nada, sobre a vida cristã, que vieram de lugares onde faziam coisas totalmente contrárias à vontade de Deus e, quando chegam ao templo da igreja em busca de ajuda, veem coisas que se parecem muito com as quais participou antes (ainda que o interesse do cristão seja diferente), mas o entendimento da pessoa que vê ainda é o mesmo de antes, então isso se torna um empecilho a pregação do Evangelho. Por isso, na esfera do culto público a forma é expressamente importante. Segundo o EDGID[1] “Um cristão não deve participar de nenhum tipo de entretenimento ou diversão que apelem à natureza carnal ou tragam descrédito ao bom testemunho cristão” (p. 18). Talvez, por parte dos organizadores do “Culto dos Heróis” e de várias outras programações assim na Igreja de Deus no Brasil surja a defesa: “Mas o que estamos fazendo não é carnal”. Porém, outra pergunta deve ser feita: “Isso não traz descrédito ao bom testemunho cristão?”. Será que trazer pessoas para a igreja a qualquer custo justifica afastar outras pessoas dela? Isso também não é pecado? Achamos muitas vezes que não devemos nada aos que não são cristãos, podemos até não dever nada a eles, mas devemos nos portar de acordo com a Palavra de Deus para que eles vejam nossas boas obras e glorifiquem a Deus (Mt 5). Por isso há uma contradição de termos ao se dizer “culto à fantasia”, pois não existe tal tipo de culto. O culto é sempre feito em prol do serviço de adoração a Deus, ensino dos salvos e salvação dos perdidos. Isso implica compreender o que Paulo disse aos coríntios que deve haver no culto decência e ordem (1Co 14. 40). O termo ordem[2] vem do grego taxis e do latim ordo e tem um sentido muito diferente do que o português implica, ou seja, mera organização. O termo em grego diz respeito a acontecimentos dinâmicos e sucessivos que não se atropelam, mas que são conduzidos por um princípio, como por um general que guia sua tropa. Paulo menciona isso exatamente com respeito aos dons e a atuação dos vários ministérios no culto público, isso fica claro pelo termo ghinesto (que diz respeito a alguém que se apresenta em público). Os que possuem dons devem ser guiados sucessivamente até que todos possam através dos dons do Espírito Santo edificar a igreja em um culto público. É importante notar que Paulo fala de dons e não de talentos humanos, e os dons que estão em privilégio são os dons que declaram e esclarecem a Palavra de Deus (1Co 12). Essa é a base do culto público. Por isso, Paulo diz que é melhor não falar em línguas em público se isso vir a atrapalhar o descrente mais do que conduzi-los a Cristo, assim o dom de línguas não deve ser ignorado ou impedido, antes praticado, mas muito mais na esfera do público do que do privado. A interpretação mais coerente do texto de 1Co 14. 40 é que “cada um individualmente haja decentemente de acordo com a ação dinâmica dos dons do Espírito Santo (como está nos primeiros versos de 1Co 12) quando estiverem se apresentando no culto público”. O motivo é que se “algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado” (1Co 14. 24). O culto público é momento de manifestação dos dons do Espírito Santo; pregação da Palavra de Deus de maneira pura; comunhão conciliadora para com Cristo e uns para com os outros. O templo é o lugar para isso acontecer. Portanto, não é lugar para festinhas seja de que caráter for. Não é lugar para encontros como um clube social. Não é lugar para divertimento e entretenimento. Nem nada que possa atrapalhar o bom testemunho cristão. Se alguém não quer servir a Cristo, deve ser por que reconhece o verdadeiro caráter de um cristão, que não se conforma (faz as mesmas coisas) que o sistema mundano dita. Por fim, o EDGID nos aconselha nas Palavras de Cristo a amar nossos inimigos e honrar ao nosso semelhante (p. 19). Que honra há se eu honro apenas os que vêm aos cultos de minha igreja e os que não quiserem que se danem? “Nossa conduta deve ser tal qual que leve os outros a Cristo” ( EDGID, p. 19). Nisso não há nada de puritanismo, mas apenas da pureza que a Bíblia exige, quem chama isso de puritanismo ainda não aprendeu o que é ser cristão.

e) O teste da fé e do amor: nem tudo que não é pecado deve ser feito. Atualmente, acreditamos que, o fato de a Bíblia não proibir algo, ou ela está incentivando ou ela está liberando. Tal pensamento é um equívoco. Há dois testes que devem ser feitos em tudo quanto formos fazer, seja com respeito ao culto público ou privado. O primeiro é o teste da fé, como disse Paulo: “Tens tu fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova” (Rm 14. 22). Ou seja, todas as coisas me são lícitas, pois tenho fé, nada me é imundo, visto que não sou mais imundo (Rm 14. 14). Este texto muito mal interpretado parece dar vazão para que façamos o que quisermos de nossa vida, inclusive pecar. Contudo, a base para “nada ser imundo” é o fato de sermos cristãos, como Paulo mesmo afirma “nenhuma coisa é imunda em si mesma” (v. 14); isto está de acordo ao ensino de Cristo no qual assegura que o mal procede do coração homem. Logo, o coração puro sabe buscar todas as coisas de maneira pura. De tal forma, que aquele que tem fé pode fazer qualquer coisa, desde que não seja pecado, para a glória de Deus e ainda assim permanecer puro. Entretanto, há um segundo teste, o exame do amor. Se no primeiro, eu, por ter fé posso fazer qualquer coisa, no segundo eu devo provar a mim mesmo: “será que além de agradar a Deus, o que faço também proporciona a manutenção da fé de meus irmãos (todos) e ainda exalta o nome de Cristo (para qualquer) incrédulo?”. Pois é isso que Paulo trata quando diz: “Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu” (Rm 14. 15). Ele usa a palavra “destruir”, ou seja, nossas obras podem destruir “aquele por quem Cristo morreu”. Claro que no texto em questão ele fala de comida sacrificada, mas devemos notar o contexto disso. Aqueles irmãos iam até o mercado e compravam carne sacrificada aos deuses, que eles mesmos não julgavam em nada afetarem a fé deles, mas isso era feito em público e todos que os viam comprar julgavam que eles compravam a carne exatamente para adorarem os mesmos deuses que os pagãos. Algum dizia: “não me importo com isso tenho fé em Deus”. Quanto a tal, Paulo questiona: “Tudo bem, você tem fé, então não comete pecado. Você está certo! Mas, já se perguntou o que aqueles que veem você pensa sobre isso?”. E objeta: “Não destruas por causa da comida a obra de Deus. É verdade que tudo é limpo, mas mal vai para o homem que come com escândalo.

Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça” (Rm 14. 20, 21 – itálico meu). Então conclui: “Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros” (Rm 14. 19). Quanto a isso o EDGID auxilia: “A literatura que lemos, os programas que vemos e a música que ouvimos, afetam profundamente a forma como sentimos, pensamos e nos comportamos. Torna-se imperativo então, que o cristão leia, ouça e veja aquilo que o inspire, instrua e o desafie a um nível mais elevado de vida. Por conseguinte: deve-se evitar literaturas, músicas e programas que sejam mundanos no seu conteúdo ou pornográfico em sua natureza. O cristão não deve assistir apresentações que sejam de natureza imoral em TV, cinemas, teatros ou outros meios (Rm 13:14; Fl 4:8)” (EDGID, p. 18). Por isso discordo da posição de Spurgeon sobre fumar, pois de alguma maneira ele ofende o princípio do amor. O fato de gostar da teologia dele não implica que tenha que concordar com tudo o que disse. É certo que todas as coisas me são licitas, mas nem todas convêm, e nem todas edificam (1Co 6. 12; 10. 23).






[1] BRASIL, Igreja de Deus no. Ensinos, disciplina e governo da Igreja de Deus. 5 ed. Goiânia: DNP, 2007.
* Todos os textos bíblicos utilizados foram retirados da Bíblia Online: http://www.bibliaonline.com.br/

4 comentários:

  1. Pr. SAMUEL JUSTO ARAÚJO26 de julho de 2013 12:51

    Graça e Paz, Paulo,


    Meu querido irmão em Cristo, depois de tanto escrever sobre a situação caótica que se encontra a igreja universal de Cristo nestes dias, e de sofrer toda espécie de consequências por isso, o único alento que encontrei em Deus, foi sua palavra que diz acerca da desesperança do profeta Elias; "ainda existem muitos que não se dobraram a baal" (tradução livre). Li seus dois artigos e pude ver que você delimita bem o assunto, significa dizer que a situação da igreja de Cristo é bem pior, esta é só a ponta do iceberg. Assim como você, não desisti e não desistirei, espero ainda fazer muito, ou alguma coisa, para contribuir com a igreja de Cristo, apesar de saber que as coisas estão acontecendo exatamente como tem que acontecer. Conte comigo.

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    1. Fico feliz meu irmão em saber que somos muitos que não se dobraram diante do engano do mundanismo. Vamos continuar unindo forças contra o evangelho do engano e em nome de Cristo fazer a vontade de Deus. Estamos juntos nessa.

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  2. Ainda que sejamos poucos,em relação ao número de cristãos,que sejamos diferentes e enquanto houver pessoas dispostas a santificação o Senhor fará maravilhas em nosso meio.
    Disse Josué também ao povo: Santificai-vos, porque amanhã fará o Senhor maravilhas no meio de vós.Js.3:5.

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