Um clamor pela Igreja de Deus no Brasil


Não sou denominacionalista, porém, sou deuseano. Geralmente em meus artigos de opinião limito-me a não usar nomes – motivos pessoais. No entanto, acredito que quando amamos alguém ou algo, chamamos pelo nome. Denominar faz-se necessário.

Estou na Igreja de Deus no Brasil há cerca de quatorze anos. Fui acolhido e bem instruído. Pastores e líderes que servem a Deus me ajudaram a estar sendo um cristão bíblico. Também sofri nas mãos de alguns carrascos do evangelho. Torturaram minha alma, massacraram minhas emoções – isso não é exagero. Pessoas que ainda não sabiam – espero que saibam agora – o que é ser um discípulo de Cristo.
Nos últimos meses tenho estado triste com questões relacionadas à Igreja de Deus no Brasil. Seja por acontecimentos atuais ou por outros que se arrastam há alguns anos e, ao invés de melhorarem, estão piorando (biblicamente falando). Sofro ao escrever estas linhas. Mas não posso ignorar o fato: não escrever também me faz sofrer.

Alguns pontos merecem atenção e cuidado. Confesso: mudança!

Nossa denominação é conhecida como a primeira denominação pentecostal do mundo. Em seu início sofreu os dissabores da falta de conhecimento bíblico-teológico. Porém, reconheceu esta fraqueza e restabeleceu-se: forte e pronta para evangelizar o mundo. Admiráveis missionários levaram a Palavra do Evangelho a vários lugares no planeta. Muitas vezes às próprias custas. A educação bíblico-teológica foi posta juntamente à fé, ambas auxiliadas pelo Espírito Santo, e milhares de vidas foram conquistadas e preparadas para servir a Cristo. Meninices? Claro que houve. Mas havia um povo preparado para enfrentar isso.
No Brasil não foi diferente. Um país que tinha preconceitos com o estudo aprofundado das Escrituras. Uma aversão à teologia. Porém, mesmo assim o missionário Bill Watson e outros notáveis irmãos e irmãs não se intimidaram e abriram uma escola de ensino teológico. Que tem fortalecido muitos ministérios até os dias atuais.

Hoje, sofro ao perceber que a Igreja de Deus no Brasil está perdendo sua identidade. E quando penso identidade, não digo apenas enquanto denominação, mas principalmente enquanto o ensino de uma igreja bíblica. A primeira igreja pentecostal do mundo tem se tornado, em muitas igrejas locais (congregações organizadas), voltada a estilos neo-pentecostais, extra-bíblicos e, infelizmente, até anti-bíblicos. Algumas destas igrejas locais até já se colocaram debaixo da cobertura de outros ministérios eclesiásticos (outras denominações – em grande parte neo-pentecostais). Mesmo o histórico nome da IDB já está sendo alterado. O nome não foi radicalmente mudado, mas os acréscimos já demonstram para onde caminhamos. Acréscimos como: IDB ministério fulano de tal, IDB igreja em células, IDB ministério isso e aquilo (perdoe minha ironia). Certo ministro teve a ousadia de colocar o nome IDB Independente, mas alguém interveio (medo ou bom-senso?). Acho que ele pensou: “Já que todos estão mudando o nome da denominação, também quero meu próprio”.

A alteração da nomenclatura é apenas um aspecto do que acontece nestas igrejas locais . A ênfase demasiada em alguns lugares ao trabalho em células toma tanto tempo que Jesus quase nem é mencionado. Não sou contra este trabalho, mas me dá medo ele tomar a maior parte de nossos cultos. Não consigo permanecer em um local assim. A ênfase também se dá à cura interior e, em alguns lugares se acredita que até mesmo cristãos possam ficar endemoninhados – até onde sei a Igreja de Deus no Brasil não crê nisso, pois a interpretação correta das Escrituras descarta tal pensamento.

Mesmo a ideologia da prosperidade tem se entranhado em muitas destas congregações, de maneira sorrateira. Ouço comumente irmãos afirmarem que nasceram para ser ricos, que receberam o dom de riquezas, e, por incrível que pareça, pastores que proclamam as mesmas coisas em púlpito. Outro dia, certo pastor pregou que todos que estavam reunidos ali naquela noite seriam curados, e se alguém não fosse curado é por que não tinha fé. Eu estava doente e não fui curado. Ainda bem que sou maduro para saber a besteira que ele estava falando. Mas nem todos possuem maturidade, alguns, infelizmente, abandonam o Evangelho por isso.

Ouvi ainda líderes, em púlpito, se gabarem do quanto gastam depois que saem do culto e vão à pizzaria e outros locais. Enquanto isso alguns membros passam necessidades. Alguns ministros se defendem dizendo não saberem que algumas pessoas passam dificuldades. Mas perguntei pessoalmente a algumas dessas pessoas e me informaram que nunca receberam uma visita pastoral.

Ao mencionar os ocorridos acima com “alguns”, estes me disseram que geralmente são pastores jovens que cometem estes erros. Preocupa-me isso, pois a juventude destes já está extrapolando a velhice. Em minha opinião isso é falta de preparo bíblico-teológico. “Outros”, ainda, me disseram que isso é vontade e disposição em fazer a obra de Deus. Admira-me ao ler a Bíblia que, a mesma vontade e disposição, levaram o apóstolo Paulo a passar cerca de quatorze anos sendo preparado, para só, então, tornar-se um missionário.

O que está acontecendo com algumas igrejas locais da IDB? O que está acontecendo com o senso crítico de cada cristão de nossa denominação? Até que ponto permitiremos que o secularismo adentre nossas vidas? Até que ponto permitiremos que nossa igreja se torne secularizada?

Temo que estejamos passando pelos mesmos problemas que enfrentamos no início se nossa denominação. Isto é, dando poder de mais a homens e aceitando um pseudo-mover de Deus baseado em emoções e, não na compreensão bíblica de arrependimento e conversão. A diferença é que, hoje, há muitos envolvidos. Outra diferença é que o problema não é dinheiro, disso parece que estamos vacinados, mas poder.
Precisamos mesmo questionar alguma coisa? Ou será que estamos no caminho certo? Talvez a crítica-teológica deva voltar a fazer parte de nossas vidas.

Oremos e clamemos ao Senhor: misericórdia por nossas vidas como igreja na denominação Igreja de Deus no Brasil.

Que o Senhor nos ajude!

19 comentários:

  1. Que isso!!! Otimo texto que continue sendo esse escritor abençõado!! Queila

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    1. Obrigado pelo carinho. Só não sei que Queila deixou este comentário,rsrsr.

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  2. sou Deusiano à 6 anos desde que imigrei da batista para IDB, me sinto muito bem nessa familia abençoada, mais já percebi muito do que foi mencionado em seu texto e é lamentável essa realidade... parabés e se me permite estarei divulgando em minha região!




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    1. Infelizmente em muitos lugares a IDB tem deixado práticas mundanas fazerem parte da vida de igreja. Fico feliz que meu texto tenha lhe edificado. Sinta-se a vontade para divulgar, compartilhar. Só não esqueça de citar a fonte. Abraço!

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  3. Condordo contigo, querido irmão. Eu também ando muito preocupado com a minha denominação, na qual sirvo há mais de 30 anos. Confesso que não sei onde vamos parar. Muitas vezes, nós que não concordamos com estas e outras coisas, ficamos à margem. Entretanto, como você e muitos outros, amo a Igreja de Deus e creio que Deus nos ajudará e ajudará nossas autoridades e se posicionarem a favor das nossas raízes históricas, cristãs e pentecostais genuínas. Amo a todos os meus irmãos e colegas de ministério, indistintamente, mas, não posso me compactuar com a falta de identidade a que muitos estão submetendo nossa igreja, o que tem levados alguns a perderem o amor denominacional e saírem para fundar ou se agregar em outros ministérios. Precisamos, mesmo clamar pela nossa Igreja de Deus.Que o Senhor te abençoe.

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    1. Caro irmão, nós lutamos por um bem comum e não individualista. Não estamos interessados em aparecer, mas em glorificar o nome de Deus. Por isso não vamos desistir, mas nos colocar à disposição do Senhor, mesmo que isso nos faça sofrer. Obrigado pelo comentário.

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  4. Perfeito! Está na hora de acordar para estas coisas, temos sofrido com isto, com este fogo estranho onde cremos que é mais fácil apagar o fogo quando está no início e mais complicado quando vira um incêndio.

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    1. É verdade, não podemos fingir que nada está acontecendo, senão logo estaremos como a igreja Católica, aceitando "cristianizando" as coisas para que os crentes possam participar. Afinal foi assim com o carnaval que era uma festa pagã. Agradeço sua participação.

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  5. Perfeito o texto! Compartilho com o irmão das mesmas preocupações.

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  6. Disse tudo!! Que a Igreja possa acordar enquanto há tempo!! Deus abençoe sua vida!

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    1. Amém! Vamos acordar, nos levantar e pregar a pura Palavra de Deus. Obrigado! O Senhor lhe abençoe também.

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  7. Infelizmente alguns pastores tem caminhado assim, esquecendo que o maior bem de uma igreja são as almas que necessitam de alimento e visitas.

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    1. Sim! Muitos tem se preocupado em encher a igreja com pessoas que não estão preocupadas com o evangelho, mas apenas em mudar de vida. Com isso, muitos pastores deixam de alimentar o rebanho de Deus com a Palavra e, passam a alimentar as cabras com outras coisas. Obrigado pelo comentário.

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  8. Muito bom o texto e percebo isto também, porem nossa denominação esta carente de modelo e creio que isto da a migração a estes modelos apostólicos, celulares e outros, porem ao observar a igreja batista que todo ano sua junta de missões traz desafios não financeiros, mas estratégicos em como alcançar e treinar o povo para a grande obra, uma carência de referencial e treinamento, desta forma grande maioria de lideres e ministros que tem apenas vontade, amor, carinho, desejo de ver as coisas acontecerem e nenhum preparo acadêmico teológico e muito menos secular.
    Tenho visto muitos, Mestres e Doutores em nossa igreja que são apenas títulos, pois o mestre e o doutor deve produzir material para os Ministros "leigos" pela necessidade e urgência da obra posso se apoiarem em suas teses e artigos.
    Cade a casa de publicações? Igrejas que crescem é pautada pelo ensino ora visto a estratégia da Metodista e Mackenzie.
    Outra coisa que me preocupa é a tutoria destes pastores, pois como os mesmo estão sendo pastoreados, será que sabem que tem pastores? Tem? ou são apenas gerentes eclesiásticos cobrando "relatórios e resultados".
    A pouco saiu uma revisão do EDGID, será que precisamos de uma reforma estatutária ou comportamental?

    Bom, meu comentário se resume a mais duvidas, mas pode ser por que tenho apenas 30 anos,16 de IDB, 9 no ministério pastoral e uma grande vontade de ganhar minha geração.

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    1. Obrigado pelo comentário irmão Bruno. Não sei se é exatamente modelo de que nossa denominação precisa. Percebo que a IDB necessita urgentemente restaurar sua identidade e unidade. Concordo contigo quando diz que temos importado vários modelos de outras denominações, e vejo que o motivo é que não estamos conseguindo nos estruturar, então pegamos tudo que aparece, mesmo modelos que não sejam tão bíblicos.
      De fato temos muitos que se chamam doutores, mas e nossa teologia? Temos uma ótima doutrina, mas uma má estruturação teológica. Somos muito mais administrativos do que eclesiásticos, muito mais doutrinários do que bíblico-teológicos e, afirmo, com isso apenas perdemos.
      Na teologia há reflexão, confrontação e provocação quanto o que se faz e se ensina na igreja, porém se apenas doutrinamos estamos somente pegando o enlatado e distribuindo sem nos preocuparmos de que modo isso será digerido.
      Precisamos de mais pessoas integradas com a realidade teológica para a vida da igreja e que se preocupem mais com a fé e vida cristã do que com a gestão de riquezas. Senão seremos como a igreja católica: teremos ouro, mas não poderemos mais dizer ao aleijado: "levanta-te e anda!"
      O Senhor continue lhe abençoando.

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  9. Parabéns Paulo pelo texto! Comungo com você nesta mesma linha de pensamento! Sou ministro a quase treze anos da IDB e também sofro em ver o rumo que algumas igrejas e congregações ligadas a nós, estão tomando em relação sua postura denominacional e práxis teológica! Por um outro lado, não podemos negar que em nosso contexto denominacional, existam homens e mulheres de Deus que labutam no ministério de forma ordeira, sóbria, com seriedade, sobretudo, numa perspectiva bíblico cristocêntrica! Por conta disso, continuo firme e constante em nossa querida IDB, pois juntos somos mais fortes! Mais uma vez, deixo aqui meu voto de apreciação ao enunciado em questão! Um forte abraço! Soli Deo Gloria!!!

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    1. Obrigado por seu comentário. Fico feliz de estarmos juntos nessa empreita. Quanto ao que disse sobre haver vários pastores que fazem de fato a obra de Deus, eu deixo para outros falarem sobre os bons, visto que, uma dura tarefa parece que me foi entregue, falar do que não está bem (rsrsrs). O Senhor lhe fortaleça sempre.

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  10. Bom dia!
    Vejo com bons olhos os comentários que foram tecidos acima pelo meu amado irmão em Cristo, ministro Paulo Freitas. Acredito mesmo que a IDB precisa tomar uma atitude em relação a alguns assuntos "pontuais" que realmente merecem atenção e carecem da mesma. O meu cuidado entretanto, é onde o meu amado irmão está colocando suas "observações". Eu como discípulo de Jesus, não posso ser motivo de escândalo para ninguém. Nem eu e nem qualquer que seja que assuma a posição de cristão. Acredito que o local correto para expor tais observações, não seria este, pelo simples fato de que pessoas que não tem a maturidade suficiente para entender qual o objetivo do exposto acima tem fácil acesso às informações postadas aqui. Este local é frequentado por todo tipo de pessoas inclusive, pessoas que não tem nada de cristão, cuja intenção é juntar informações para de uma maneira ou de outra contradizer, fazer levantes, cisões, difamações, enfim, apropriar-se de qualquer tipo de informação que possa ter para usar no combate contra o reino de Deus.
    Acredito ainda que o melhor local para se expor tais observações, seria os conselhos locais em primeira instancia, pois, assim mudar-se-á o comportamento local, para posteriormente ir para níveis mais altos.
    Em resumo, gostaria de me colocar à disposição do amado irmão, para juntos empreendermos uma caminhada neste sentido. Meu nome é Luiz Antônio de Oliveira, sou pastor da IDB em Brasília. Bacharel em Teologia, Filosofia, Escritor e professor de Teologia Sistemática.
    Um abraço.

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