Cartas do Inferno - C. S. Lewis

CARTA Número I
 
Meu Caro Wormwood:
 
Prestei bastante atenção no que você disseacerca de conduzir as leituras do seu paciente, tomando cuidado para que ele assimile bastante daquele amigo materialista. Mas você não está sendo um pouquinho ingênuo nesta tarefa? Parece-me que você está se convencendo (não sei baseado em quê) que através da argumentação você pode afastá-lo da influência do Inimigo. Isso até seria aceitável, se seu paciente tivesse vivido alguns séculos atrás, pois naquele tempo os humanos ainda sabiam distinguir quando uma coisa havia sido provada ou não. E se tivesse sido, os homens a aceitavam e mudavam sua maneira de agir e de pensar, somente seguindo uma corrente de raciocínio. No entanto, devido àimprensa semanal e a armas semelhantes, alteramos bastante este contexto. Parta do princípio que sua vítima já se acostumou desde criança a ter uma dúzia de filosofias diferentes dançando em sua cabeça. Ele não usa o critério de "VERDADEIRO" ou "FALSO" para conferir cada doutrina que lhe apareça (seja do Inimigo ou nossa). Ao invés disso, ele verifica se a doutrina é "Acadêmica" ou "Prática", "Antiquada" ou "Atual", " Aceitável" ou "Cruel". O jargão e a expressão feita (e não o argumento lógico) são seus melhores aliados para mantê-lo longe da Igreja. Não perca tempo tentando levá-lo a concluir que o Materialismo seja verdadeiro (sabemos que não é). Faça-o pensar que ele é Forte, Violento ou Corajoso - ou ainda, que é a Filosofia do Futuro! Este é o tipo de coisas que lhe despertarão a atenção. Percebo que você tem intenções produtivas, mas há um problema muito grande quando tentamos persuadir o paciente a passar para nosso lado pelo emprego de argumentos e lógica: isto conduz toda a luta para o campo do Inimigo, que para azar nosso também sabe argumentar (e melhor do que nós). Por outro lado, no que diz respeito à propaganda prática (ainda que falsa) que lhe sugeri, Ele tem se mostrado por séculos bem inferior ao Nosso Pai lá de Baixo. Pela pura argumentação, você despertará o raciocínio do paciente; uma vez que a razão dele desperte, quem poderia prever o resultado? Veja que perigo! Mesmo que uma cadeia de raciocínio lógico possa ser torcida de modo a nos favorecer, isso tende a acostumar o paciente ao hábito fatal dequestionar as coisas, analisando as mesmas com visão geral, e desviando-se das experiências ditas "concretas", que na verdade são apenas experiências sensíveis e imediatas. Sua maior ocupação deve ser portanto a de prender a atenção da vítima de modo a jamais se libertar da corrente do "Se eu vejo, creio!". Ensine-o chamar esta corrente "Vida Real", e jamais deixe-o perguntar a si próprio o que significa "Real". Lembre-se que ele não é puramente espírito como você. Nunca tendo sido humano (E abominável a vantagem do Inimigo neste ponto) você não percebe o quanto os humanos são escravizados à rotina. Uma vez, tive um paciente, ateu convicto, que costumava fazer pesquisas no Museu Britânico. Um dia, estando ele a ler, notei que seu pensamento esvoaçava com tendência a um caminho errado. Com efeito, o Inimigo ali estava ao seu lado, naquele momento. Antes que dessepor mim, vi o meu trabalho de vinte anos começando a desmoronar. Se tivesse entrado em pânico e tentado argumentar, eu estaria irremediavelmente perdido. Mas não fui tolo a esse ponto! Recordei da parte da vítima que mais estava sob meu controle e lembrei-lhe que estava na hora de almoçar. O Inimigo acho lhe fez uma contra-sugestão (você bem sabe como é difícil acompanhar aquilo que Ele lhes diz) de que a questão que lhe surgira na mente era mais importante do que o alimento. Penso ter sido essa a técnica do Inimigo porque quando lhe disse "Basta! Isto é algo muito importante para se meditar num final de manhã...", vique o paciente ficou satisfeito. Assim, arrisquei dizer: "E muito melhor se você voltar ao assunto depois do almoço e estudar o problema com cabeça mais fresca. Não havia acabado a frase e ele já estava no meio do caminho para a rua. Na rua, a batalha estava ganha. Mostrei-lhe um jornaleiro gritando "Olha o Jornal da Tarde", e o Ônibus No.73 que ia passando, e antes que ele tivesse dado muitos passos, eu o tinha convencido de que sejam lá quais forem as idéias extraordinárias que possam vir à mente de alguém trancado com seus livros, basta uma dose de "Vida Real" (que ele entendia como o ônibus e o jornaleiro gritando) para persuadi-lo que "Aquilo Tudo" não podia ser verdade de jeito nenhum.A vítima escapara por um fio, e anos mais tarde, gostava de se referir àquela ocasião como "senso inarticulado de realidade, que é o último salva-vidas contra as aberrações da simples lógica". Hoje, ele está seguro, na Casa de Nosso Pai. Começa a perceber ? Graças a processos que ensinamos em séculos passados, os homens acham quase impossível crer em realidades que não lhes sejam familiares, se estão diante de seus olhos fatos mais ordinários. Insista pois em lhe mostrar o lado comum das coisas. Acima de tudo, não faça qualquer tentativa de usar a Ciência (digo, a verdadeira) como defesa contra o Cristianismo. Certamente, as Ciências o encorajariam a pensar em realidades que a visão e o tato não percebem. Tem havido tristes perdas para nós entre oscientistas da Física. Se a vítima teimar em mergulhar na Ciência, faça tudo que você puder para dirigi-la para estudos econômicos e sociais, acima de tudo, não deixe que ela abandone a indispensável "Vida Real". Mas o ideal é não deixar que leia coisa alguma de Ciência alguma, e sim lhe dar a idéia de que já sabe de tudo e que tudo que ele assimila das conversas nas "rodinhas" são resultados das "descobertas mais recentes". Não se esqueça que sua função é confundir a vítima. Pela maneira como alguns de vocês, diabosinexperientes falam, poderiam até pensar (que absurdo!) que nossa função fosse ensinar!
 
Seu afetuoso tio,
 
Screwtape

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Bibliografia
LEWIS, C.S. Cartas do inferno. São Paulo: Vida, 2004.

Procuram-se profetas! Um anúncio estritamente bíblico



E busquei dentre eles um homem que levantasse o muro, e se pusesse na brecha perante mim por esta terra, para que eu não a destruísse; porém a ninguém achei” (Ezequiel 22, 30).

Não há uma pessoa sequer que possa se colocar na brecha pela causa deste mundo perante o Senhor. Todavia, Deus em sua eterna bondade nunca deixou de procurar homens e mulheres que se dispusessem a lutar contra a injustiça existente.

O apóstolo Pedro, demonstra o motivo do sucesso dos profetas do Antigo Testamento. Segundo ele, “porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (II Pedro 1, 21).

Nosso tempo não é melhor ou pior do que o mundo antigo. A injustiça continua e, as pessoas prosseguem clamando por que algo seja feito.

Mas ninguém pode fazer nada. A não ser que seja “movido pelo Espírito Santo”. É uma questão de ouvir o chamado, mas não é uma questão de força própria, é algo estritamente de acordo com o poder de Deus. Nenhum profeta estava inteirado em seus próprios negócios, sua disposição era para com o propósito divino.

Portanto, Deus busca profetas, ainda hoje. Mas não pessoas que estejam interessadas em aparecer, ou desejosas de mostrarem suas competências. Mas pessoas que tenham consciência de que quando Deus buscou (busca) alguém, ele nunca encontrou (encontra). Isso ocorre por não existir uma só pessoa capaz de cumprir as expectativas de Deus. Mas se não há alguém que possa cumprir as expectativas do Senhor, como alguém poderá se levantar pela causa de Deus?

Simples ! Se deixando mover pelo Seu Espírito Santo.

Aquele que se deixa mover pelo Espírito Santo aprende a ouvir uma única voz: a da Palavra de Deus. Ouve o chamado de Deus para que se coloque na brecha e reconhece que é incapaz de tal coisa, e assim, como sucedeu com Ezequiel, tal pessoa se torna um profeta. Ou seja, aquele que transmite a Palavra da vontade do Senhor.

Os profetas do Antigo Testamento, ao que parece, estavam sempre conscientes de que não estavam de acordo com a expectativa divina, mas sabiam que o amor, a justiça e o poder do Espírito Santo do Senhor poderiam suprir tal carência.

O profeta Isaías reconhece seu pecado diante de Deus e se coloca não diferente, mas como outro qualquer dentre o povo (Isaías 6, 5). Jeremias mesmo já crescido, chegado em sua juventude, se compara a uma criança diante do chamado de Deus (Jeremias 1, 4s). Daniel, que através de suas orações demonstrou ser totalmente dependente de Deus em qualquer situação (Daniel 2, 14 ss; 6, 1ss). O que não dizer sobre os conhecidos Profetas Menores, boiadeiros, sacerdotes, trabalhadores da terra, homens comuns que reconheceram suas debilidades, mas que o Senhor usou poderosamente.

Algo importante de si notar é que Deus não procura pelos diferentes, muito menos pelos indiferentes. O Senhor busca “dentre eles”, isto é, no meio do povo que habita neste mundo, no meio de gente de lábios impuros, no meio de seres humanos, entre os covardes, os oprimidos e sobrecarregados. Mas ele mesmo diz: “Não encontrei ninguém”.

O Senhor busca e continua à procura; até que apareça alguém entre todos que se reconheça tão indigno, se levante e diga: “Eis me aqui”. E o autor da carta aos Hebreus (11, 38) completa dizendo que destes homens e mulheres “o mundo não era digno”.

Não há dignidade em ser profeta, alguns podem até ser honrados, mas a proposta de trabalho não oferece salários fartos nem benefícios espetaculares. A expectativa deve ser sempre de perseguição, como disse o Mestre (Mateus 5ss). Quem deseja ser profeta, tem sempre uma cruz a carregar, não uma cruz de salvação, mas de luta contra a injustiça, não pelos seus próprios parâmetros do que seja justo, mas pela justiça de Deus.

A questão é: “Quem deseja a indignidade perante o mundo?”. Em meio a um sistema que chama por vencedores, que busca conquistas e pede pessoas que de alguma maneira estejam dispostas a se calar diante de tudo que vêem e ouvem?

O anúncio divino continua. Mas onde estão os “sete mil” que o Senhor preservou, será que até estes se dobraram perante Baal? Será que você também se dobrou? Será que eu me dobrei? Podemos até responder que não, mas o que estamos fazendo?

Buscando dignidade!?

O boletim celestial informa “Se o Senhor não encontrar alguém que se ponha perante ele por esta terra, ela será destruída”. Notemos que não é preciso muito, apenas nos colocarmos diante dele. Ele não encontrou ninguém em seu anúncio, que suprisse suas expectativas. Mas de onde vieram os profetas que fizeram alguma coisa neste mundo? Porque esta terra ainda não foi destruída?

Deus supre suas próprias expectativas, o esperado Profeta dos profetas, o próprio Deus encarnado, supriu as expectativas do Pai, na esperança da salvação e no cumprimento da salvação, através de sua própria indignidade. Novamente o autor dos Hebreus nos lembra que pelo sacrifício de Cristo o anúncio divino continua, e nos convoca: “… corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta…”, e declara como podemos suprir as expectativas de Deus “… olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus…” e demonstra o que Ele fez para conseguir “… o qual em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia (vergonha, indignidade)…” (Hebreus 1, 1ss – parênteses nosso).

O que nos resta? Calar e fingir que está tudo bem e continuarmos nos alegrando e nos dando em casamento como nos tempos de Noé; ouvindo o anúncio e nada fazendo?

O anúncio está ai. Mas, afinal, cada um de nós já sabe, pois temos ouvidos, mas nem sempre são para ouvir – pelo menos não o que o Espírito diz à igreja.

Onde está profeta? Não você que profetiza besteiras à torta e à direita, dizendo que Deus falou isso e aquilo e até cobra por suas predições. Onde está profeta? Sim, você mesmo, que se acha indigno de poder transmitir a Palavra de Deus, mas já não pode suportar mais tanta injustiça. Atenda ao anúncio, Deus ainda está convocando.

Em Cristo e para Cristo,

Tentando atender ao anúncio.


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