A manutenção da fé independe de rituais

"No princípio era o logos, e o logos estava com Deus e o logos era Deus" (João 1.1).

O primeiro contato do ser humano com a pessoa Divina acontece no momento da criação do próprio ser humano, e o momento da queda do ser humano acontece exatamente quando este imagina que Deus só se encontra com ele na virada do dia. Quando Adão e Eva pecam, se escondem de Deus, parece que eles não compreendem que o Senhor está além da “virada do dia”. Adão e Eva de, certa forma, pensaram que Deus estava limitado a um ritual do entardecer.

Atualmente, intriga-me o fato de muitas pessoas imaginarem que a presença de Deus é “mais forte” apenas no cubo que denominam igreja – quando muitas não imaginam que Deus está apenas lá. Deus para essas pessoas faz o tipo caseiro, não sai de casa e quem quer vê-lo que vá visitá-lo. Tais pessoas até crêem na onipresença de Deus, mas a paróquia continua sendo o lugar da “glória”.

Há algumas questões que gostaria de entender. Mas parece que estão demasiado distante de meu entendimento.

Uma delas é o motivo de grande parte dos cristãos virem a Bíblia como uma caixa de promessas, na qual buscam o que acham que precisam e ignoram o restante – não percebendo que ela toda é lâmpada para os pés daqueles que querem trilhar o caminho do Senhor.

Com relação ao ensino litúrgico, se aprende que muitas vezes a fé se manifesta através de símbolos – e com certeza não há um único ser humano que não se utilize de símbolos. Todavia a fé não permanece por causa dos símbolos que criamos, estes apenas nos permitem racionalizar nossa crença. Porém, começamos a dizer que sem tais objetos simbólicos a fé pode deixar de existir. Acabamos por mistificar os utensílios “eclesiásticos” como se contivessem a presença do próprio Deus. Materializamos a nossa fé em algo e a retiramos de nós. Criamos amuletos da fé: pulseiras, tanques cheios de água, taças especiais, cadeiras pastorais ungidas, cartões de ofertas, diários de orações e outras tantas coisas. Todavia, não compreendemos que a fé apenas vem pela Palavra de Deus e só através desta pode aumentar.

Investimos tanta autoridade na liderança eclesiástica como se fossem intocáveis e quase infalíveis (alguns até acreditam que são infalíveis). Aqueles que não se amoldam a tal visão de liderança são taxados por negligentes e rebeldes. Falta-nos muita compreensão e por isso temos nos enredado no mesmo erro da igreja romana. É fato, biblicamente, que os lideres são dignos de respeito e honra, porém, não são mais cristãos que nenhum outro salvo. Os líderes são sujeitos às mesmas paixões e suportam as mesmas lutas; são guias para que outros possam guiar também e não babás de bebês super-crescidos e mimados que não querem amadurecer na fé cristã. Pastores se esquecem que são ovelhas, que são irmãos, que sua condição não é superior, mas sim de serviço.

Há uma idéia maluca e pervertida, que não sei de onde vem. Acredita-se que apenas alguns podem interpretar as Escrituras. Todavia, a responsabilidade é de cada cristão estudar a Palavra de Deus e aprender para si a fim de achegar-se à estatura de Cristo e consequentemente ensinarem outras pessoas. Porém, temos sido preguiçosos e incorremos no erro de não conhecer as Escrituras e por isso não sabemos nem o que é o poder de Deus. Ignoramos o sacerdócio de todos os santos e dessa forma não participamos da presença do Senhor como a Bíblia nos promete.

De onde procede a idéia deque uma pessoa específica ou um grupo de pessoas (grupo de louvor) detém a capacidade de “trazer” a glória de Deus à igreja? Não consigo entender. Deus é onipresente-onisciente-onipotente, logo, porque precisa que alguém o traga como se Ele não pudesse se mover?

Deus não habita em nossas paróquias, nesse cubo minúsculo que denominamos igreja. O Senhor fez sua morada em cada pessoa que verdadeiramente entregou-se à fé em Cristo Jesus. Não depende da pessoa A ou do grupo B, é em cada um de nós que Deus habita – nós somos seu templo e igreja – sua presença não está em nós em determinado momento agora e não depois. Não é por aquele que canta ou pelo que prega que Deus se manifesta, mas simplesmente porque Ele escolheu estar em nós, não em alguns, mas em todos os que crêem e confiam nele. Não em algum momento, mas em todos os momentos.

A fé não é mera liturgia, e não existe por coincidência, é a maneira que Deus proveu ao ser humano para este se relacionar com Ele.  Deus não vem aos nossos cultos de domingo. Pelo contrário, Ele está conosco e em nós todo o tempo que dispomos nesse mundo, cada dia, semana ou segundo. O Senhor não depende de lugar, está conosco em qualquer circunstância. Só precisamos entender que a virada do dia é aquele momento grandioso que acontece só porque o Senhor nos ama. Um momento especial.

A fé não pode ser pautada pelas coisas que temos, inventamos ou vemos. Ela só pode ser medida pelo quanto confiamos e buscamos cumprir o que Deus nos deixou em sua Palavra. Os rituais não nos fazem encontrar a Deus, mas se não nos cuidarmos eles podem nos fazer pensar que Deus é limitado a eles.

Portanto, devemos cultivar nossa fé na certeza do amor de Deus, independente do que se vê, pois as coisas eternas e invisíveis são mais reais do que as visíveis e transitórias.

Um comentário:

  1. Caro Paulo Freitas,

    Obrigado pela participação lá no Sinergismo. Parabéns pelo blog. Há muitos anos, há quase 30, visitei a ID na cidade de Valinhos. A manutenção da Fé independe dos rituais, mas a manutenção da credo não prescinde deles. Eu tambem estudo filosofia na Univ Metodista de São Paulo.

    Um abraço
    Paulo Silvano Cardoso

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