Destruidores de um legado bíblico-teológico-lógico-histórico

Procuremos na história dos grandes avivamentos e sempre será encontrado que nenhum avivamento poderia ter acontecido se não fosse o estudo bíblico-teológico – se não começou com o estudo das Escrituras seguiu-se a para este.

Ao pensarmos nos grandes reformadores que de alguma maneira contribuíram para que o evangelho não fosse tragado pela mera tradição patrística da Igreja Católica Romana, mas retornasse ao real entendimento das Escrituras Sagradas já conseguimos uma fonte inesgotável de argumentos. Como exemplo, podemos citar John Huss, que desafiou a morte para demonstrar que a Bíblia é a única fonte de revelação do Cristianismo e que o papado não tinha autoridade para oferecer remissão de pecados; Lutero que defendeu o sacerdócio de todos os santos, a fim de que Bíblia não mais fosse dominada pela tradição católica romana, mas que pudesse ser lida e estudada por todo aquele de desejasse – o povo teria acesso à Palavra de Deus; Não esqueçamos ainda Calvino, aos escrever as suas célebres Institutas demonstrou quão grandiosa é a Palavra de Deus e que continua viva e eficaz.

Ao observarmos a história dos avivamentos, sempre notaremos que a Bíblia e seu estudo eram ou se tornavam o centro deste. Como no avivamento Wesleyano, John Wesley era teólogo e estudioso de várias ciências, sua pregação não era maçante ou vazia, seus sermões até os dias de hoje são uma rica fonte de conhecimento e edificação – era um verdadeiro conhecedor do poder e da Palavra de Deus – dessa maneira a Inglaterra em sua época foi tocada de forma exuberante pelo Espírito Santo. Podemos mencionar ainda Moody, que enquanto jovem se converteu em um ensino bíblico dominical – e não deixou seu legado para traz – dedicou-se arduamente no trabalho bíblico dominical a ponto de cerca de quinze a trinta mil pessoas freqüentarem as aulas nas escolas dominicais – fundou um instituto bíblico para a formação de missionários, e várias outras escolas – foi de fato um cristão preocupado com o ensino e propagação da Palavra de Deus. Para o momento talvez não seja necessário citar outros outros exemplos (há excelentes livros com mais detalhes – para uma pesquisa rápida o Google pode ajudar).

O que tenho visto ultimamente nas reuniões evangélicas (não é preciso ir longe, ás vezes, é só ligar a televisão), é bem diferente do que os cristãos acima citados ensinaram. Atualmente há uma busca desordenada por avivamento, porém com um ensino bíblico tão desprovido da pura interpretação bíblica no qual a Bíblia parece ter deixado de ser a Palavra de Deus. As igrejas têm abandonado as escolas bíblicas dizendo que são um projeto falido para o século atual. O que é dito é que o único agente hoje no “mover sobrenatural” é o Espírito Santo. O interessante é que Jesus nunca disse que Sua Palavra e Seu Espírito agiriam separadamente; pelo contrário Ele afirma no Evangelho Segundo João que as Palavras que Ele disse eram “espírito e vida” e que quando ele enviasse “outro[1] Consolador” este faria seus discípulos lembrarem o que lhes havia ensinado. Dessa maneira, é impossível desvincular o ensino correto da Palavra de Deus e a ação do Espírito Santo. O avivamento[2] somente pode acontecer quando de acordo com as verdades bíblicas.

Tenho ouvido barbaridades, como alguns pregadores que se dizem "cansados de pregar na homilética, usar teologia e fazer seus sermões com hermenêutica" – a desculpa é que a igreja não sente a unção de Deus e isso não causa mudança em ninguém. Então, esses cansadinhos preguiçosos preferem torturar e mutilar o texto bíblico levando ao púbico uma pregação sem conteúdo e cheia de cobranças não bem definidas, e para suprir o que resta dão apenas uns “bons” gritos para que o público fique alegre e cheio de “emo-unção[3]”. O que é pregado em um domingo mal dura até o próximo. Mas, afinal, deve ser assim, senão os irmãos não voltam na próxima semana.

Infelizmente, estamos em uma época de destruidores de um legado bíblico-teológico-lógico-histórico. Estamos destruindo o que teólogos-reformadores que presenciaram e participaram de avivamentos legaram para nossa geração: o acesso livre à Palavra de Deus, a possibilidade de podermos estudar e interpretar as Escrituras.

Destruímos um legado bíblico-teológico, no sentido de que passamos a reinterpretar as Escrituras de maneira incorreta partindo dos métodos racionalistas humanos e/ou liberais ou simplesmente esperamos receber uma revelação celestial com conteúdo novo que possa emocionar e motivar nossos corações. Destruímos um legado lógico-histórico, lógico, enquanto racional, que pensa os atos e cada cristão vive a vida cristã normal independente do sermão vazio do domingo à noite – histórico, enquanto o passado também atua como fonte de conhecimento, e auxílio na vida prática de cada cristão (destruímos a história e a linha lógica que fora traçada desde a igreja apostólica com a intenção de propagar a salvação por meio da Palavra de Deus em Cristo Jesus).

Somos destruidores, assassinos do pensamento daqueles que deram suas vidas para que o Cristianismo continuasse vivo e além de uma mera tradição, que fosse além de conceitos e filosofias vãs. Que ultrapassasse a ficção humana a fim de que todos quantos entregassem suas vidas a Cristo alcançassem uma vida digna do Evangelho.

O que mais nos resta destruir?

Ou será que podemos tentar ainda re-construir?
Ao Senhor Jesus Cristo toda a glória.


[1] Grego -  allos: outro da mesma natureza.
[2] Particularmente prefiro reavivamento, mas por momento utilizarei o termo acima.
[3] Trocadilho com as palavras emoção e unção.

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