Ainda irmãos? ou Inquietação interior



“... nosso amado irmão Paulo...” 2 Pe. 3,15


Do que você prefere ser chamado? Pastor, professor, mestre, missionário...? Assim alguém me perguntou! Respondi que podia chamar-me por meu nome mesmo, ou seja, Paulo Eduardo. Mas se quisesse me chamar de algo além de meu nome próprio, poderia me chamar de irmão.
Depois de tal acontecido fiquei a meditar no ocorrido. E uma pergunta me veio ao pensamento: “Por que gostamos tanto de títulos?” – e ainda mais – “Por que não aceitamos um título qualquer, e queremos sempre mais?”.
Assisti no You Tube um debate entre um teólogo norte-americano e um ateu. Os produtores do debate caçoavam com o teólogo, visto que quando perguntaram seu nome ele logo disse, chamem me de Doutor “fulano de tal” (o fulano de tal é por minha conta), mas quando perguntaram ao ateu, este disse que podiam chamá-lo por seu primeiro nome (e o ateu era PhD.). Detalhe! O debate não era frente a frente, mas sim gravado, nenhum estava vendo o outro.
Percebo que não é diferente nos dias atuais, conheço vários doutores em diversas áreas do saber e a maioria deles preferem ser chamados por “você” e quando muito professor (a maioria deste não são cristãos). Todavia, não sei porque motivo, na igreja somos tão exigentes com os títulos e principalmente com o “(S)senhor”.
Há títulos para todos os gostos, diácono, evangelista, pastor e, agora a moda é aderir a títulos mais pop, tais como: Bispo, Apóstolo, Pai-Póstulo (não sei que porcaria é essa) e tantos outros que podem existir por aí. Parece que ninguém está satisfeito com o título que tem.
Quando observo o texto supracitado, escrito por Pedro, admiro a simplicidade em que ele trata o “grande apóstolo dos gentios”, Pedro não faz uma super apresentação, mas simplesmente o chama de amado irmão Paulo.
Alguém, que queira ainda argumentar a favor de sua contínua auto-preservação “vocacional”, vai dizer que Pedro poderia chamar a Paulo dessa maneira, visto que eles estavam na mesma condição, ambos eram apóstolos. Mas em contra-argumento, posso afirmar que Pedro não estava falando a um grupo de líderes, mas escrevendo aos demais irmãos de uma comunidade cristã (será que alguém ainda lembra o que isso significa?). Quando Pedro escreve para “o povo” dessa maneira ele está dando permissão para que “o povo” haja dessa maneira e chame a Paulo e também ele, o próprio Pedro de irmão. Logo ele não exige nenhum título nomeador a si e nem a Paulo.
Na igreja primitiva, ser irmão era mais importante do que qualquer título e qualquer função. Afinal o que prevalecia na Eclésia era a fraternidade que vivia no amor de Cristo.
O próprio Paulo não faz questão de demonstrar título algum quando reporta sobre Apolo na carta aos Coríntios, ele mesmo diz: “E, acerca do irmão Apolo, roguei-lhe muito que fosse com os irmãos ter convosco...” 1 Co. 16, 12. Apolo aqui é colocado na mesma condição dos demais.
Por que exigimos às pessoas que nos chame por títulos? Até mesmo quando assinamos algum documento fazemos questão de colocar nosso tão precioso título (isso independente do lugar) antes de nossos nomes, como se fosse parte deste. Há várias pessoas com o nome Pastor Fulano, Evangelista Cicrano, Apóstolo Beltrano.
Pergunto-me se isso é porque valorizamos de fato nossa obra no Senhor? Ou se é por que assumimos uma real forma de servo que não podemos desvincular o título de nossos nomes? Ou será que a causa é nos sentirmos bem em sermos tratados diferentes em relação aos demais e até mesmo com superioridade? (Se alguém tem alguma sugestão envie um comentário, mas com bons argumentos).
O amor fraternal é a marca que deveria permanecer na verdadeira Eclésia do Único Senhor, o Sumo Pastor e Bispo, o Real Apóstolo e Mestre, o que não se auto-condecora, mas se humilhou e foi condecorado – leia se engrandecido – e exaltado pelo Único que pode ser chamado de Pai de todos os que existem. Alguém conhecido por um nome comum e que aceitou seu nome até a morte e reina com este nome por toda a eternidade: Jesus.

Quando o amor bíblico-fraternal é vivido na prática, títulos e funções são apenas questões secundárias – visto que sempre há respeito mútuo. Quem precisa cobrar honra para si, já perdeu o direito de honra há muito tempo.

“Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama a seu irmão permanece na morte”. 1 Jo. 3, 14.

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