Igreja: o corpo natural de Cristo

Não é necessário estar na igreja para ser salvo. É preciso ser igreja para estar salvo. Congregar é ato daqueles que são igreja. O próprio termo igreja (eclesia) implica em reunião. Não é uma reunião de quem vai ao templo, mas uma reunião como em um corpo que nunca se desmembra. Não diz respeito a um ir, antes a um fazer parte, isto é, não se vai a igreja, e sim se reúne como igreja. Compreender isto é sumamente importante para se ser discípulo de Cristo.

Não congregar (reunir) seria o equivalente a um membro do corpo que não quer se comungar com os demais membros. Imaginemos um corpo em que o braço não queira hoje estar nele, o corpo continua sendo corpo, mas aquele braço, como que decepado, passa a ser apenas um membro inválido, ou seja, deixa de ser membro e logicamente a vida não está nele.

Não se pode ser igreja sozinho, logo não se pode afirmar salvação alguém que rejeite o corpo do próprio Cristo e sua comunhão. Se equivoca quem pensar em dizer "não há salvação fora da igreja", pois isto coloca novamente a igreja como local e não como corpo natural de Cristo. Todavia não há salvação sem ser igreja e não há igreja que não se reúna e se mantenha unida pelo vínculo de Cristo.

Como somos seres que ocupa espaço, não há como nos reunirmos senão em algum espaço, no entanto, é necessário compreender que a união da Igreja do Senhor ultrapassa o tempo e espaço, sendo não apenas uma reunião local, mas acima de tudo espiritual e, desta comunhão participam todos os salvos de todos os tempos (mesmo os que já estão com Cristo) e lugares (não importa a distância). Não, eles não descem ou vêm até nós e nem nós subimos ou vamos até eles. Tal comunhão se dá unicamente pelo fato de tanto eles quanto nós sermos todos salvos e pertencentes a um único corpo, o de Cristo.

Porém, é necessário compreender que ser igreja nunca pode ser tido apenas como um acontecimento no tempo e no espaço, há o momento de coletividade de adoração que pode ser chamado de momento de convergência no qual todos participam em uma reunião física e comum. Contudo, ser igreja transcende a reunião momentânea e se expressa também em uma reunião espiritual. Ou seja, não importa por onde eu vá meu braço sempre é parte de meu corpo se permanece no meu corpo; assim não importa se a reunião terminou continuo sendo corpo de Cristo e sendo ligado a todos os demais membros. Portanto, assim como minha mão tem responsabilidade com minha outra mão e também meu pé em fazer andar o restante de meu corpo; assim como igreja cada um é responsável em amor em cuidar de seu irmão como parte do corpo de Cristo.

Se nos reunimos apenas momentaneamente para louvar e adorar a Deus, mas não temos consciência do que é o corpo de Cristo, temo que nossas reuniões nada mais são que um passatempo em um dia de domingo. Se durante todo o restante da semana vivo como se não fosse membro do corpo de Cristo e não tenho nenhuma responsabilidade com meu irmão a quem vejo é vã toda e qualquer reunião que eu queira oferecer a Deus a quem não vejo.

Ser igreja é ser o corpo de Cristo guiado pelo cabeça que é o próprio Senhor. O corpo não vai onde quer, mas apenas onde a cabeça lhe guia. A igreja não deve fazer o que lhe agrada, mas antes o que agrada a Deus, pois somente Ele sabe como devemos fazer isto.

O Senhor nos ajude!

Paulo Freitas
pensarteologia@gmail.com

Jornada à maldade

De volta a meu pecado. Não à transgressão cometida, mas à situação intrínseca de pecador, naturalmente fadado ao mal e consequentemente entregue ao engano.

Não sou bom e, definitivamente, não tenho expectativas na humanidade, pois não sofro com esperança nem em mim mesmo.

Minhas idiossincrasias são extremamente limitadas à minha satisfação própria, ou seja, tudo que vem de mim é para mim, não sei pensar ou fazer o bem, sou orgulhoso e egoísta, prova disso até o momento é a quantidade de verbos na primeira pessoa que já disse (mais um) neste texto.

Não acredito em chance alguma de melhoria para mim, minha natureza humana me inflama a tentar me satisfazer de que sou bom e posso melhorar, mas na verdade isto nada mais é que uma maneira de tentar transmitir aos outros que sou bonzinho e preciso ser aceito, porém no fundo, o que quero é satisfazer-me, é alcançar meus desejos não importa o que aconteça. A cara de bonzinho é só mais uma artimanha de um coração maligno que adora ter suas vontades realizadas.

Talvez você que tenha tido estômago para ler este texto até aqui esteja pensando: “Como você está sendo pessimista”. Ou ainda: “Você é um ignorante”. Outros também imaginam: “Que pecado ele terá cometido? Está querendo o perdão!”. Mas os piores, como eu, dirão: “Você é um idiota, pecador, maldito que não sabe nada sobre a humanidade”. Por isso eu digo: Fique a vontade em seus julgamentos, eles só comprovam o que disse sobre mim e ratificam o mesmo sobre você. Não importa do que me chame, o que quer que diga é a mais pura verdade. Não implica em ter ou não cometido pecado, mas em ser pecador e é isso que eu sou. Nada que eu faça poderá mudar esta realidade, praticando ou não esta é minha natureza. Então um último pensamento lhe passa pela cabeça: “Entendi, ele está querendo se passar por bonzinho demonstrando sua maldade e assim ficar de coitadinho”. Novamente você está certo. Já afirmei isto anteriormente, mas isto novamente só demonstra o quão maléfico sou e incapaz de cometer algum bem. Minhas melhores ações são más e pecaminosas.

Não imagine agora, que eu o trouxe até aqui para lhe dar uma palavra de retorno à bondade e, de algum modo, preencher nosso ego malfazejo. Esta jornada à maldade é real, nós é que nos enganamos tentando nos satisfazer com a ilusão de que alguma coisa boa pode sair do ser humano. A bondade humana nada mais é que uma viagem à Terra do Nunca ou ao País das Maravilhas. O mal em nós é tão claro que nos faz acreditar que podemos fazer algo de bom, que somos bons. Todavia a verdade é o oposto, temos aparência de bem, porém isso já é astúcia maligna.

Apesar de ser mal, prefiro não ser enganado pela mentira de que posso ser bom às minhas próprias custas. Não há volta, enquanto estivermos neste mundo teremos que conviver com esta natureza macabra que almeja constantemente o bem para si, mas mesmo para si sempre o torna com mal. Visto que este bem nada mais é do que produto de uma mente maligna, por isso mesmo o que faço para mim, ainda que acredite ser bom, na realidade é mal, pois nasce de um ser vil como eu sou.




Não espero melhoras, o inferno não são os outros, sou eu mesmo; eu mesmo tenho a natureza não muito diferente a de um demônio; eu mesmo estou caminhando para um inferno que não preparei, mas que está preparado para todos os maus. Sinto informar, mas lá é nosso lugar. Aceitando ou não isso é a paga que merecemos.

Uma refutação à banalização da fé na Igreja de Deus no Brasil – Parte 2

d) Culto privado e culto público: continuando a discussão sobre o “Culto dos Heróis” é bom lembrar que há um grande mal entendido com relação ao culto privado e o culto público. Muitas pessoas, nos dias de hoje, acreditam que ambos significam a mesma coisa. Todavia, não é assim. Seja no Antigo ou no Novo Testamento sempre existiu uma maneira de cultuar a Deus em público e outra em privado. Para que fique claro, o privado pode ser tido como qualquer esfera que envolva familiares e amigos próximos e não apenas o indivíduo. Público é tudo aquilo que diz respeito a qualquer pessoa, ao povo. Primeiramente, sobre o culto privado a Bíblia não se preocupa muito quanto à forma, apenas diz que deve haver orações, ações de bondade, louvores e meditação na Palavra de Deus; o conteúdo não se difere do culto público, pois diz respeito à adoração ao próprio Deus e abandono do pecado, Cristo como centro da vida cristã e desejo pela vontade de Deus. Ou seja, no culto privado o que importa é que fazei tudo para glória de Deus” (1Co 10:31). Por isso o conhecido príncipe dos pregadores Charles Spurgeon afirmava que fumava seus charutos no aconchego de seu lar para a glória de Deus (apesar de não concordar com ele, por motivos que mostrarei adiante), no entanto, nunca fez um “Culto do Charuto” e convidou os membros de sua igreja para participarem. Assim, podemos perceber que, quando estou só, posso cultuar a Deus de maneiras as quais jamais cultuaria em público, como, por exemplo, com roupas de dormir, fazendo caretas em frente ao espelho, brincando, em uma festa a fantasia. Agora sobre o culto público, o que se pode dizer? Qual é o espaço mais conhecido para o culto público? O templo de reuniões da igreja. Aquele templo não é sagrado, todavia, é um espaço aberto a crentes e descrentes e todo tipo de pessoa que queira adentrá-lo, se não for assim não é igreja. Ali passam pessoas de várias opiniões, pessoas que não compreendem muita coisa, ou mesmo nada, sobre a vida cristã, que vieram de lugares onde faziam coisas totalmente contrárias à vontade de Deus e, quando chegam ao templo da igreja em busca de ajuda, veem coisas que se parecem muito com as quais participou antes (ainda que o interesse do cristão seja diferente), mas o entendimento da pessoa que vê ainda é o mesmo de antes, então isso se torna um empecilho a pregação do Evangelho. Por isso, na esfera do culto público a forma é expressamente importante. Segundo o EDGID[1] “Um cristão não deve participar de nenhum tipo de entretenimento ou diversão que apelem à natureza carnal ou tragam descrédito ao bom testemunho cristão” (p. 18). Talvez, por parte dos organizadores do “Culto dos Heróis” e de várias outras programações assim na Igreja de Deus no Brasil surja a defesa: “Mas o que estamos fazendo não é carnal”. Porém, outra pergunta deve ser feita: “Isso não traz descrédito ao bom testemunho cristão?”. Será que trazer pessoas para a igreja a qualquer custo justifica afastar outras pessoas dela? Isso também não é pecado? Achamos muitas vezes que não devemos nada aos que não são cristãos, podemos até não dever nada a eles, mas devemos nos portar de acordo com a Palavra de Deus para que eles vejam nossas boas obras e glorifiquem a Deus (Mt 5). Por isso há uma contradição de termos ao se dizer “culto à fantasia”, pois não existe tal tipo de culto. O culto é sempre feito em prol do serviço de adoração a Deus, ensino dos salvos e salvação dos perdidos. Isso implica compreender o que Paulo disse aos coríntios que deve haver no culto decência e ordem (1Co 14. 40). O termo ordem[2] vem do grego taxis e do latim ordo e tem um sentido muito diferente do que o português implica, ou seja, mera organização. O termo em grego diz respeito a acontecimentos dinâmicos e sucessivos que não se atropelam, mas que são conduzidos por um princípio, como por um general que guia sua tropa. Paulo menciona isso exatamente com respeito aos dons e a atuação dos vários ministérios no culto público, isso fica claro pelo termo ghinesto (que diz respeito a alguém que se apresenta em público). Os que possuem dons devem ser guiados sucessivamente até que todos possam através dos dons do Espírito Santo edificar a igreja em um culto público. É importante notar que Paulo fala de dons e não de talentos humanos, e os dons que estão em privilégio são os dons que declaram e esclarecem a Palavra de Deus (1Co 12). Essa é a base do culto público. Por isso, Paulo diz que é melhor não falar em línguas em público se isso vir a atrapalhar o descrente mais do que conduzi-los a Cristo, assim o dom de línguas não deve ser ignorado ou impedido, antes praticado, mas muito mais na esfera do público do que do privado. A interpretação mais coerente do texto de 1Co 14. 40 é que “cada um individualmente haja decentemente de acordo com a ação dinâmica dos dons do Espírito Santo (como está nos primeiros versos de 1Co 12) quando estiverem se apresentando no culto público”. O motivo é que se “algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado” (1Co 14. 24). O culto público é momento de manifestação dos dons do Espírito Santo; pregação da Palavra de Deus de maneira pura; comunhão conciliadora para com Cristo e uns para com os outros. O templo é o lugar para isso acontecer. Portanto, não é lugar para festinhas seja de que caráter for. Não é lugar para encontros como um clube social. Não é lugar para divertimento e entretenimento. Nem nada que possa atrapalhar o bom testemunho cristão. Se alguém não quer servir a Cristo, deve ser por que reconhece o verdadeiro caráter de um cristão, que não se conforma (faz as mesmas coisas) que o sistema mundano dita. Por fim, o EDGID nos aconselha nas Palavras de Cristo a amar nossos inimigos e honrar ao nosso semelhante (p. 19). Que honra há se eu honro apenas os que vêm aos cultos de minha igreja e os que não quiserem que se danem? “Nossa conduta deve ser tal qual que leve os outros a Cristo” ( EDGID, p. 19). Nisso não há nada de puritanismo, mas apenas da pureza que a Bíblia exige, quem chama isso de puritanismo ainda não aprendeu o que é ser cristão.

e) O teste da fé e do amor: nem tudo que não é pecado deve ser feito. Atualmente, acreditamos que, o fato de a Bíblia não proibir algo, ou ela está incentivando ou ela está liberando. Tal pensamento é um equívoco. Há dois testes que devem ser feitos em tudo quanto formos fazer, seja com respeito ao culto público ou privado. O primeiro é o teste da fé, como disse Paulo: “Tens tu fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova” (Rm 14. 22). Ou seja, todas as coisas me são lícitas, pois tenho fé, nada me é imundo, visto que não sou mais imundo (Rm 14. 14). Este texto muito mal interpretado parece dar vazão para que façamos o que quisermos de nossa vida, inclusive pecar. Contudo, a base para “nada ser imundo” é o fato de sermos cristãos, como Paulo mesmo afirma “nenhuma coisa é imunda em si mesma” (v. 14); isto está de acordo ao ensino de Cristo no qual assegura que o mal procede do coração homem. Logo, o coração puro sabe buscar todas as coisas de maneira pura. De tal forma, que aquele que tem fé pode fazer qualquer coisa, desde que não seja pecado, para a glória de Deus e ainda assim permanecer puro. Entretanto, há um segundo teste, o exame do amor. Se no primeiro, eu, por ter fé posso fazer qualquer coisa, no segundo eu devo provar a mim mesmo: “será que além de agradar a Deus, o que faço também proporciona a manutenção da fé de meus irmãos (todos) e ainda exalta o nome de Cristo (para qualquer) incrédulo?”. Pois é isso que Paulo trata quando diz: “Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu” (Rm 14. 15). Ele usa a palavra “destruir”, ou seja, nossas obras podem destruir “aquele por quem Cristo morreu”. Claro que no texto em questão ele fala de comida sacrificada, mas devemos notar o contexto disso. Aqueles irmãos iam até o mercado e compravam carne sacrificada aos deuses, que eles mesmos não julgavam em nada afetarem a fé deles, mas isso era feito em público e todos que os viam comprar julgavam que eles compravam a carne exatamente para adorarem os mesmos deuses que os pagãos. Algum dizia: “não me importo com isso tenho fé em Deus”. Quanto a tal, Paulo questiona: “Tudo bem, você tem fé, então não comete pecado. Você está certo! Mas, já se perguntou o que aqueles que veem você pensa sobre isso?”. E objeta: “Não destruas por causa da comida a obra de Deus. É verdade que tudo é limpo, mas mal vai para o homem que come com escândalo.

Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça” (Rm 14. 20, 21 – itálico meu). Então conclui: “Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros” (Rm 14. 19). Quanto a isso o EDGID auxilia: “A literatura que lemos, os programas que vemos e a música que ouvimos, afetam profundamente a forma como sentimos, pensamos e nos comportamos. Torna-se imperativo então, que o cristão leia, ouça e veja aquilo que o inspire, instrua e o desafie a um nível mais elevado de vida. Por conseguinte: deve-se evitar literaturas, músicas e programas que sejam mundanos no seu conteúdo ou pornográfico em sua natureza. O cristão não deve assistir apresentações que sejam de natureza imoral em TV, cinemas, teatros ou outros meios (Rm 13:14; Fl 4:8)” (EDGID, p. 18). Por isso discordo da posição de Spurgeon sobre fumar, pois de alguma maneira ele ofende o princípio do amor. O fato de gostar da teologia dele não implica que tenha que concordar com tudo o que disse. É certo que todas as coisas me são licitas, mas nem todas convêm, e nem todas edificam (1Co 6. 12; 10. 23).






[1] BRASIL, Igreja de Deus no. Ensinos, disciplina e governo da Igreja de Deus. 5 ed. Goiânia: DNP, 2007.
* Todos os textos bíblicos utilizados foram retirados da Bíblia Online: http://www.bibliaonline.com.br/

Uma refutação à banalização da fé na Igreja de Deus no Brasil – Parte 1

A Igreja de Deus no Brasil tem seus fundamentos na igreja bíblica do Novo Testamento. Está fundada, desde seu nome à sua declaração de fé, nos rudimentos da Palavra de Deus. A IDB tem procurado ser, de maneira teológica e prática, uma denominação segundo as Escrituras. No entanto, apesar de todo o cuidado para com a sã doutrina, muitas igrejas locais tem apresentado ensinos que contradizem a regra de fé de nossa denominação e, pior ainda, vão de encontro ao Evangelho. Sou membro da IDB a mais de dez anos, mas nos últimos anos tenho visto aberrações que têm manchado o ensino de fé de nossa igreja. Não posso me calar a não ser que seja contestado e dado como errado a partir da Bíblia. Caso contrário, não tenho outra escolha senão falar do que incomoda a muitos. Sei que este é um grito de socorro entalado na garganta de muita gente, mas por algum motivo, acaba abafado, suprimido. Mas eu não aguento mais. Não sei o que pode acontecer depois daqui, o Senhor me perdoe se eu estiver errado, se a interpretação que faço estiver equivocada, mas meus olhos só veem uma coisa: a glória de Deus; meu coração só pulsa uma coisa: a vontade de Cristo.

Hoje me deparei com uma propaganda que me espantou, um cartaz no qual havia um personagem de desenho animado, mas propriamente um herói da Marvel (indústria de entretenimento em quadrinhos). Averiguei e percebi que havia outros cartazes com muitos outros desses personagens. O cartaz fazia referência a um culto de jovens denominado “Culto dos Heróis” e se tratava mais propriamente de uma festa à fantasia no templo de uma IDB. Todo participante deveria ir fantasiado de seu super-herói preferido. Abismado com isso publiquei em meu perfil do Facebook uma nota de repúdio, o que em poucas horas gerou vários comentários de pessoas que também discordavam da ideia, e muitas discussões sobre o assunto. Resolvi, então, organizar este artigo e demonstrar minha posição a partir da interpretação bíblica sobre o assunto bem como de acordo com as regras de fé e prática da Igreja de Deus no Brasil. Nos comentários (link aqui) foram ditas algumas questões as quais tomarei parte a seguir. Não preocuparei em defender-me dos comentários tecidos à minha pessoa, o Senhor me justifica, mas defenderei a fé pela Igreja do Senhor.

Tenho ciência de que muitas igrejas locais estão adentrando por caminhos contrários às Escrituras, portanto, espero poder edificar o corpo de Cristo nesta denominação através deste artigo.

A IGREJA LOCAL
De acordo com o livro de Ensinos, Disciplina e Governo da Igreja de Deus (EDGID) a igreja local é “a unidade básica da administração regional [...] sob a coordenação de um Pastor Titular [...]. Cada igreja local, ao ser aceita como parte da Igreja de Deus, está sujeita às decisões da Assembléia Geral nas questões de doutrina, ensino e governo” (EDGID, p. 61). Cada igreja local possui sua liderança local que a administra apenas localmente (acho que foi necessária a redundância), ou seja, não possui nenhum direito ou poder legal de mudar qualquer que seja a definição constante no EDGID. Portanto, se alguém, de alguma maneira infringe as regras de fé da denominação que, creio eu, são o máximo possível embasadas na Bíblia, este deve ser admoestado.

1 O CULTO DOS HERÓIS
A programação em questão “O Culto dos Heróis” infringe vários pontos relacionados ao EDGID e, principalmente às Escrituras. Vamos por partes:

1.1 QUESTÕES BÍBLICAS E TEOLÓGICAS
a) O problema da nomenclatura do evento: o nome em si já é um descaso com toda a história da fé. O que é o culto? O culto é um serviço prestado a Deus e aos irmãos - adoração a Deus e comunhão uns com os outros - (Ef 4. 7-16). O apóstolo Paulo utiliza a metáfora do corpo (1Co 12. 12-27; Ef 4. 4-6) para demonstrar a união orgânica e viva que é a Igreja, ou seja, um culto só pode ser serviço prestado a Deus se e somente se qualquer cristão verdadeiro puder participar dele com um mesmo propósito, e que este objetivo não seja de um grupo, mas antes de todo o corpo segundo a Palavra de Deus (Ef 4. 15, 16). Estou farto de cultos específicos, nos quais apenas uma parte pode participar e a outra fica olhando ou nem mesmo vai ao templo. Biblicamente isso não é culto é outra coisa. Culto não é meramente assistido, mas manifestação do poder de Deus através de cada membro do corpo de Cristo que é a igreja. Alguém poderá questionar: “Mas não proibimos ninguém de participar, quem quiser está convidado”. Isso é conversa fiada. Muitos na igreja apenas dizem: “Isso é coisa de jovem.”, mas se forem confrontados com a verdade bíblica teriam que concordar que eles não se sentem bem em participar de um movimento dessa ordem. Ainda sobre o nome. De que tipos de heróis estão falando? Dos heróis bíblicos? De maneira alguma. Os heróis mencionados são os heróis das empresas de entretenimento (quer se entreter faça isso em casa e não no culto público). São seres fictícios que têm por objetivo apenas a diversão e o lucro (quer se divertir fique à vontade, mas não chame isso de culto e nem use o templo para isso). Mas que os que sentem saudades da vida mundana se apropriam disso, pois “é melhor na igreja do que no mundo” e, acabam por trazer o mundo para dentro da igreja. Sentem falta dos pepinos do Egito (Nm 11. 4-6). A comida de Deus não satisfaz mais (Mt 4. 4). Os heróis não estão mais na Palavra de Deus (Cf. Hb 11). Os heróis que inspiram nossos jovens nem mesmo existem, são irreais, personagens mirabolantes que exaltam um antropocentrismo vigente nessa época relativista. É tudo fantasia. O evangelho não é fantasia, mas é “o poder de Deus para a salvação” (Rm 1. 16).

b) O problema do pragmatismo evangelístico: segundo os comentários no post a intenção do “Culto dos Heróis” era evangelizar os adolescentes. Creio que o que se pensa é que de outra maneira estes adolescentes não iriam à igreja. O apóstolo Paulo escrevendo a Timóteo disse que há “um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo” (1Tm 2. 5). Isto é, o único motivo para que alguém possa fazer parte do corpo de Cristo é o próprio Cristo, qualquer meio utilizado para trazer alguém à fé deve ser provido pelo próprio Deus, senão, como disse Lutero: “Qualquer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias”. Não importa quantas pessoas encham a igreja, se o motivo pelo qual elas chegaram a Cristo não foi o próprio Cristo é bem provável que elas ainda estejam longe da fé. Qualquer jovem que diga ter se convertido, mas que não sabe dar razão de sua fé depois de algum tempo na fé, ainda não conheceu a vida eterna. Chega de “oba, oba”, apenas as Escrituras proveem fé para a salvação em Cristo (Rm 10. 17) e qualquer outro meio deve ser tido como coisa imunda e desprezível (Gl 1. 8). A igreja deve abrir seus olhos e compreender que nem tudo que dá certo é certo, isso é apenas mais um engano de Satanás para deter a verdadeira obra da Igreja que é levar o evangelho puro e simples ao perdido. O pragmatismo religioso de que se eu estou tendo “frutos” (enchendo a igreja) Deus está feliz comigo deve ser aniquilado. Deus não está preocupado em que se encha a igreja de pessoas que estão ali tendo Ele como segundo plano, pois a fé de tais pessoas se perde facilmente quando não há as programações que lhes enchem os olhos e lhes satisfazem os prazeres que abdicaram do mundo: mero ateísmo prático; pois com a boca confessam a Deus, mas com o coração o despreza. Deus não é a totalidade da vida para essas pessoas, mas apenas mais uma parte. Isso é triste. Mas eu desafio: tire as programações por um breve tempo (seis meses) e comprovem quantos vão sobrar. Não podemos deixar a igreja virar um playground para pessoas que querem apenas se divertir em um lugar menos movimentado. Creio que Deus quer uma igreja que cresça em números, mas que não tenha que sacrificar tua Palavra para que isso aconteça.

c) O problema do comportamento para com os não-cristãos: “O que é aquilo ali?” Pergunta João. “Dizem que é um culto!” Responde Pedro. “Sério? Pensei que fosse uma boate, por que tá igual a que eu fui ontem, luzes e som a vontade todo mundo dançando.” Retruca João. “Cara não fale assim, ali é a casa de Deus” Defende Pedro. “Se é a casa de Deus hoje ele tá viajando, por que os filhos dele tão fazendo a festa” Conclui João. O que temos a oferecer aos descrentes? Cópia das coisas que eles já têm, mas numa versão melhorada ou modificada, sem sexo e bebidas alcoólicas, em um lugar que possam desfrutar tudo de maneira lúcida? E ainda por cima com Deus pra aprovar tudo que fazem? Não é bem assim que o mundo nos vê. O apóstolo Pedro em sua epístola deixou bem claro que se há algum motivo para sofrermos que seja por sermos cristãos (1Pe 4. 14-19). Paulo nos ordena a examinar todas as coisa para que possamos reter apenas o que é bem e após examiná-las devemos fugir até mesmo da aparência do mal (1 Ts 5. 21, 22). E o que possui aparência do mal? Tudo aquilo que nos afaste de crescermos na graça e no conhecimento de Deus, que nos satisfaça os olhos e a carne e nos torne amigos das coisas do mundo (1 Jo 2. 15-17). Amigo nesse caso é o que passa a concordar com o que seu amigo-mundo faz, mas se não concorda com tudo pelo menos participa ali, juntinho dele, bem do ladinho, olhando não tendo, mas querendo. Devemos ser luz para o mundo, isto é, iluminar o caminho para eles, o que só é possível através do conhecimento da Palavra de Deus; também temos que ser sal, ou seja, nossos testemunhos devem superar as práticas deles, para que nossas práticas possam de alguma maneira salgar e fazer diferença neste mundo não o deixando apodrecer de vez (Mt 5. 1ss). Devemos nos portar bem para com os de fora e não sermos motivo ou impedimento para a verdadeira salvação pela fé.

Muito triste!
Só ao Senhor a Glória.



Essa é a apenas a primeira parte estarei concluindo a segunda parte a partir do EDGID.

Meu exemplo de pregador

O melhor sermão que já ouvi durou menos que um minuto. A lembrança daquele dia me acompanha a mais de dez anos. O dia em que um pregador, sem ambição alguma, com singelas palavras tocou minha alma. Infelizmente, não me lembro do nome dele, nem mesmo de seu rosto. Recordo-me que foi em um culto residencial. Talvez, o não lembrar-me, confirme melhor ainda seu papel de pregador. Pregar para Cristo ser lembrado e não a si mesmo.

Naquele dia fui atravessado por uma experiência que mudou minha vida e, continua mudando ainda hoje. Cada vez que sou chamado a pregar oro, e busco subir no púlpito como aquele pregador naquele dia: humilde e confiante em Deus. Peço ao Senhor para que minhas palavras sejam tão impactantes quanto às daquele homem. Que eu seja despretensioso e, não me importe com um resultado, todavia, simplesmente, de que a Palavra de Deus seja comunicada.

A Palavra pregada, naquela circunstância, ressoa a mais de uma década pelos cômodos do meu ser, não me deixando esquecer a verdade dita. Antes, a rememoração, a cada vez, parece reconfigurar meu sentido com respeito ao dito, como se sempre se repetisse, porém como algo novo; sempre; de novo. Uma verdade que não apenas diariamente é nova, mas me renova.


Espero nunca esquecer. Mesmo do pregador já tendo me esquecido. Um homem sem eloquência, sem retórica ou oratória, contudo com um grande sermão. No qual em menos que um minuto disse tudo que se precisava dizer, com todo o conteúdo que deveria ter. O conteúdo de uma vida entregue a satisfazer a quem o enviou. As singelas nobres palavras: “Jesus é muito bom! Ele me mudou e me fez ser o que ele quer que eu seja”.

Livros que recomendo

A